Por Dra Ana Perdigão - Nutrição em Obstetrícia e Pediatria
 
Na prática clínica, muitos pacientes possuem algumas dúvidas sobre o jejum antes de procedimentos cirúrgicos, e, outros, embasados em recomendação médica, têm a certeza de que não devem ingerir absolutamente nada antes da cirurgia. Mas, será mesmo necessário o período de jejum prolongado?

A resposta é não. Somente em algumas cirurgias deve ser respeitado um período de 8 horas de jejum. O jejum pré-operatório está diretamente ligado à anestesia. Por isso, antes de entrarmos no jejum propriamente dito, é preciso entender o que ela significa.

Anestesia é o bloqueio temporário da sensibilidade e da dor. Para isso, existem medicamentos anestésicos usados para induzir à anestesia. Ela pode ser feita com preservação ou perda da consciência. O jejum está diretamente ligado à anestesia do tipo regional (da cintura para baixo, por exemplo) ou geral (o paciente permanece adormecido durante toda a cirurgia). Além de remover a dor e sensibilidade, a anestesia geral também atua no alívio dos quadros de ansiedade pré e pós-operatória, no relaxamento muscular e no bloqueio de possíveis recordações imediatamente antes ou logo após a intervenção cirúrgica.

Então, porque médicos recomendam jejum prolongado antes de uma cirurgia?

Até algum tempo atrás, acreditava-se que o jejum era essencial no pré-operatório, pois evitaria a chamada Síndrome de Mendelson, uma condição clínica caracterizada pela broncoaspiração de conteúdo gástrico durante a indução anestésica. Ou seja, o que está no estômago é aspirado até os pulmões. Portanto, seguindo essa linha de raciocínio, o jejum é obrigatório. A Síndrome foi relatada durante cirurgias de emergência e acabaram por ampliar o jejum obrigatório para cirurgias eletivas (cirurgias com data previamente marcada). Na época, as técnicas anestésicas não eram muito modernas, não sendo possível prevenir vômitos e complicações pulmonares durante a anestesia. Logo, acabou por se tornar uma prática comum até hoje.

Há alguns anos, a Sociedade Americana de Anestesiologistas e a Sociedade Europeia de Anestesia publicaram diretrizes para o jejum pré e pós-operatório, fazendo cair por terra todas as recomendações de jejum prolongado, por não haver embasamento científico que sustente a prática. Baseadas em evidências, as diretrizes recomendam expressamente a abreviação do jejum

Por que reduzir o período de jejum?

O esvaziamento gástrico de um jejum pré-operatório de 8 horas é praticamente igual a um jejum de 2 horas, respeitando ingestão de líquidos indicados. Além do mais, abreviar o jejum reduz o risco de infecções, diminui os efeitos colaterais dos anestésicos, melhora a resposta do organismo ao trauma da cirurgia. Diminui também o tempo de internação, sensação de sede, de fome e melhora o bem-estar antes e após o procedimento cirúrgico. Isso também inclui a abreviação do jejum no pós-operatório. Adultos e crianças podem ingerir líquidos assim que desejarem, após a cirurgia. Só há recomendação de jejum em condições clínicas de emergência ou reações graves à anestesia, o que é bastante incomum.

Levando com consideração o jejum em obstetrícia, sua abreviação é muito importante. Além dos benefícios relatados acima, reduz o estresse psicológico materno após a cesárea, melhora a ansiedade, nutre a puérpera para que ela tenha condições metabólicas adequadas para amamentar e se dedicar ao recém-nascido, melhora o processo de cicatrização e traz alívio afetivo à mãe.

Portanto, abreviar o jejum é uma conduta segura e recomendada. Inclusive em pacientes diabéticos, gestantes, obesos mórbidos e pacientes com refluxo gastroesofágico. Infelizmente, profissionais desatualizados continuam a orientar o contrário. E quem sofre são os pacientes com um jejum metabolicamente estressante e sem evidências científicas.

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