Por Dra Ana Perdigão - Nutrição em Obstetrícia e Pediatria
Antes de entrarmos no tema, é importante falar sobre algumas considerações. Independente de qualquer outro líquido oferecido à criança após os 6 meses, o aleitamento materno deve ser mantido da primeira hora de vida até o 6º mês exclusivamente (exceto em raros casos). Após esse período, mesmo com a oferta de alimentos, manter o leite materno por até 2 anos ou mais. Além de ser nutricionalmente completo (nenhuma fórmula em pó se iguala ao leite), ele protege o bebê contra várias doenças e garante imunidade (anticorpos/células de defesa) adequada para a criança.
Primeiramente, é preciso estar ciente de que não há melhor líquido para hidratação que não seja a água. Em qualquer idade. Após os 6 meses, o hábito de beber água deve ser incentivado e os sucos não podem substituí-la. Podem ser um acréscimo na dieta da criança, apenas. Outro ponto importante: os sucos devem ser naturais, ou seja, de frutas frescas/in natura. Não se deve oferecer sucos de caixinha, concentrados e polpas. Esses tipos de "sucos" interferem no paladar do bebê. O suco deve ser feito em casa e consumido logo após o preparo.
Seja qual for a idade da criança (após os 6 meses), a oferta de sucos deve ser no copo e não na mamadeira. A oferta de líquidos na mamadeira interfere no desenvolvimento dos dentinhos, no hábito alimentar, no ato de mastigar/engolir, na fala e no desenvolvimento psicomotor da criança. Além disso, o suco não deve ser coado. No máximo diluído, mas não coado. Explico a seguir.
O momento considerado ideal para consumir sucos é após 1 ano de idade. Contudo, o suco pode ser oferecido entre 6 meses e 1 ano, porém, de forma esporádica. Esse "de vez em quando" se dá por 2 motivos:
1 - A quantidade de fibras presentes no suco é diferente da quantidade presente nas frutas in natura. As frutas apresentam um teor maior de fibras, sendo nutricionalmente melhor para consumo. Quando preparamos um suco, trituramos/esprememos as fibras da fruta. Elas ficam em pedaços muito pequenos, perdendo bastante suas propriedades funcionais. São absorvidas mais rápido e aumentam rapidamente a taxa de açúcar no sangue. Elas são uma das responsáveis pela nossa saúde intestinal e pelo controle da glicemia (açúcar no sangue). Fibras íntegras têm absorção intestinal mais lenta (formam uma barreira física no intestino).
2 - Crianças que ingerem quantidade insuficiente de fibras apresentam alteração no trânsito intestinal (diarréia ou constipação) e, dependendo da oferta de outros alimentos, uma glicemia maior, contribuindo para o surgimento de doenças "de adultos", na infância, como obesidade e diabetes. As fibras estabilizam/equilibram o nível de açúcar no sangue, bem como de outros marcadores, como o colesterol e suas frações.
Além disso, os sucos, se dados com frequência, após os 6 meses, impedem ou dificultam a criação de bons hábitos alimentares. Líquidos com sabor (sucos) interferem na aceitação de novos alimentos. Alimentos sólidos incentivam a curiosidade da criança sobre os mesmos (cheiro/textura/sabor/temperatura) e estimulam a mastigação.
O suco, devido seu menor teor de fibra e maior possibilidade de aumentar a glicemia, pode ser diluído em água. Lembrando que são sucos naturais, não industrializados. Outro fato importante é não adicionar açúcar ou adoçante nos sucos. Ambos modificam o paladar dos pequenos, impedindo a manutenção de bons hábitos. Os adoçantes, tanto em crianças quanto em adultos, promovem alterações neurológicas, modificando o consumo alimentar.
E por último, é preciso incentivar a criança a consumir frutas sólidas (em pedaços ou amassadas), inteiras (com casca, quando elas forem comestíveis, é claro) ao invés de habituar a criança a beber sucos. Os sucos não podem interferir na vontade da criança de beber água. A quantidade média é de 140 ml de suco para ingestão. Se dados em excesso, deterioram os dentinhos e podem causar diarréia, inclusive em crianças de maior idade, de 2 e 3 anos.
Bons hábitos alimentares e adequada oferta de alimentos garantem melhor crescimento e desenvolvimento psíquico nos pequenos!


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